terça-feira, 5 de maio de 2009

Análise_Deixe Ir


Deixe ir

Despedir-se de algo que não faz mais sentido e abrir-se para os desafios e as oportunidades de um novo ciclo é parte natural da vida. Então por que será que é tão

difícil dizer adeus?

Dia desses, assisti a uma mostra de curtas e médias-metragens do diretor norte-americano Jay Rosenblatt, que antes de ser cineasta trabalhou como psicólogo. Rosenblatt propõe interpretações muito particulares para a realidade em seus documentários. Um deles, em especial, me chamou a atenção: Membro Fantasma, uma reflexão poética sobre a dor e o aprendizado do adeus. Numa de suas passagens mais marcantes, um homem tosa uma ovelha enquanto uma voz narra as diferentes fases do luto. Indagado sobre as razões de ter escolhido essa cena para ilustrar a perda, Rosenblatt respondeu: Queria uma metáfora que também significasse renovação. Uma imagem que sintetizasse, ao mesmo tempo, vulnerabilidade e entrega. A ovelha perde aquela cobertura de lã; mas, ao longo de sua existência, outras crescerão e serão tosadas. Um ciclo natural, portanto.

Existem momentos assim na vida, de corte, de conclusão. A perda pode vir por uma circunstância externa, como no caso da morte de alguém querido, uma demissão, uma separação repentina, um acidente. Mas pode também ser decorrente de um processo em que a decisão final depende de nós. De qualquer forma, nos dois casos, temos de nos despedir. E esse processo dói.

Deixar ir embora faz parte da existência, tanto quanto começar um ciclo novo. Só que, em diferentes graus, todo ser humano tem dificuldade de colocar um ponto final.

Por isso, teima em insistir numa situação conhecida, embora já insatisfatória, e não consegue assumir que aquela etapa esgotou-se e que deve finalizá-la. É preciso mesmo coragem para dizer adeus. Um adeus verdadeiro, do fundo da alma e com consciência, e não um até breve, volto já. É sobre isso, leitor, que vamos falar aqui.

O que é o adeus?

Em primeiro lugar, tiremos a carga negativa que gira em torno da despedida. Por si só, adeus não quer dizer desistência, abandono ou fracasso: essas são interpretações atribuídas por nós mesmos. O psicólogo Wagner Canalonga, sacerdote da Sociedade Taoísta de São Paulo, recorre a uma imagem bonita para representar o adeus: é como atravessar uma porta, deixando um ambiente para entrar em outro. A mesma porta que se fecha atrás de você, impossibilitando seu retorno para o primeiro cômodo, permite sua entrada no novo aposento. Em outras palavras, o fim é sempre o começo de uma outra história. Ter isso claro traz uma compreensão diferente e mais leve do que está por vir.

Outra metáfora bastante oportuna: você já ouviu falar de ecdise? Trata-se da mudança periódica de casca dos artrópodes. O esqueleto externo, rígido, limita o crescimento do bichinho. Por isso, de tempos em tempos, é preciso que ele deixe a casca velha para formar uma nova e mais folgada e continuar a se desenvolver. Assim também é conosco: as diversas experiências vividas dia a dia vão nos alargando interiormente. Até o instante em que as escolhas antigas tornam-se obsoletas e novas se fazem necessárias mesmo que seja para continuar na trajetória anterior (no casamento, na carreira, naquele modo de viver), mas com outra presença e outros paradigmas.

E como identificar esse instante de revelação? É um forte chamado interior, como se uma parte bastante profunda de você a alma e não o ego o conduzisse para um rumo um tanto indefinido. Mas, aos poucos, aquele caminho vai fazendo sentido, afirma a psicóloga junguiana Regina Nanô, de São Paulo. Hoje a razão virou o único ponto de apoio para as pessoas. Mas a intuição é que nos guia, por isso devemos levar em conta o que diz nosso coração. Uma amiga tem um reflexão muito bonita a respeito. Ela costuma falar que o ego grita, a alma sussurra. Como vivemos num mundo ruidoso, tomado por mandamentos vindos de todos os lados (da cultura, da moda, da publicidade), só escutamos os berros os do ego, querendo manter o controle a todo custo, e os dos outros. Os apelos da alma, aqueles que injetam vitalidade na existência, ficam inaudíveis.

E a hora certa?


O poeta espanhol Antonio Machado tem um belo verso no qual transmite essa idéia: O vento, num dia radioso, certa vez chamou. A frase sintetiza o que se passou comigo. Há pouco mais de três meses, comecei a me despedir de uma Fernanda antiga para abrigar uma outra, renovada, que está docemente vindo à tona. Deixei um emprego bacana, com um bom salário, numa empresa em que trabalhei por sete anos e meio e onde tinha algum status e vários amigos. Para quê? Não sei exatamente dedicar-me ao teatro e ao clown, coadjuvantes da minha trajetória anterior e que agora pedem para ser protagonistas; viajar pelo mundo visitando projetos humanitários; escrever livros. Ao menos, é para isso que me sinto impelida. E esta matéria faz parte da minha despedida, ajudando a aceitar meus sentimentos nesse período frutífero de incertezas.

O verdadeiro adeus surge quando a pessoa já entendeu qual é seu destino e refletiu muito a respeito do que precisa se desembaraçar para seguir adiante em seu caminho, afirma a filósofa Dulce Critelli, professora da PUC de São Paulo. Para ela, a lucidez na finalização de um ciclo indica um importante sinal de maturidade: o indivíduo compreende que é responsável pela própria existência. E também pelos ganhos e perdas, acertos e erros de suas escolhas. O processo da despedida sempre carrega duas grandes questões cruciais, aliás, para a maioria das tradições filosóficas. Quem sou eu? E qual é o sentido da vida? Segundo a filósofa, nem sempre o adeus é consciente, fruto de um período de maturação. Pode ser o desejo de escapar de um contexto desconfortável. Isso acontece, por exemplo, quando uma nova habilidade é requerida no trabalho e o indivíduo se sente acuado ou inseguro. Também quando a intimidade começa a se estabelecer num relacionamento amoroso e uma das partes acha que não suporta a situação. Em ambos os casos, a pessoa decide, às pressas, pôr um ponto final na experiência a fim de fugir dela e evitar o confronto com seus fantasmas. Essa atitude não é de engajamento com uma decisão madura, afi rma Dulce. Na ruptura coerente, existe uma construção gradativa de bases para o novo caminho.

Portanto, antes de dizer adeus, vale refletir bastante, ponderar, pensar em como dar os próximos passos. E também perguntar: por que quero fazer isso? Para escapar de uma dificuldade ou porque desejo dar um rumo mais rico à minha vida?

A publicitária Rosângela Carrasco, de 46 anos, levou bastante tempo para amadurecer sua resolução de mudar totalmente de rumo. Em julho de 2006, depois de mais de uma década empregada numa livraria, ela pediu demissão e lançou-se na carreira de atriz, com a qual sonhava desde a adolescência. Trabalhava naquele emprego, mas a vozinha interior continuava presente, dizendo que eu poderia ser mais feliz. Aquele trabalho não tinha mais a ver comigo.

O adeus ao trabalho, em si, não foi tão difícil. Mas as renúncias que vieram em seguida sim. Rosângela alugou o apartamento em que morava e voltou a viver com a mãe, depois de mais de 20 anos. Além da privacidade, sente falta também dos amigos do ambiente de trabalho, com os quais já não tem tanto contato. Sem contar o desafio de sempre: as finanças. Porém, as conquistas compensam. Mesmo que, a olhos alheios, pareçam ainda insuficientes, para Rosângela elas faíscam como pedras preciosas. Ano passado, ficou três meses em cartaz com a peça Pedido de Casamento, de Anton Tchekhov, no Teatro Bibi Ferreira. Acho bacana ter encontrado a coragem de buscar meu sonho e ter dito adeus a coisas até então importantes, conta ela.

Por que o sofrimento?

Eis uma das grandes complicações em despedir-se: como admitir que a vida planejada anteriormente não faz mais sentido para a pessoa que você é hoje? A impermanência da existência incomoda porque inviabiliza nosso controle. Por isso, uma das razões para o sofrimento gerado pelo adeus é um velho conhecido: o apego.

Atribuímos nossos próprios significados às pessoas e às situações e isso nos liga a elas de tal forma que não conseguimos nos desapegar, diz o psicólogo Arnaldo Bassoli, da Associação Palas Athena, em São Paulo. Mas, se as transformações internas e externas são inevitáveis, por que se agarrar a certos momentos quando sua existência está levando você para outro lado?

O problema é que o ser humano, ainda mais na sociedade consumista de hoje, não se contenta apenas em vivenciar algo; ele quer possuir esse algo, retê-lo, conservá-lo em formol para que se mantenha para sempre tal e qual era no início e isso vale para tudo: um parceiro, um emprego, um status, um argumento, até uma rotina. E que angústia perceber a impossibilidade desse desejo! Bassoli usa uma metáfora budista para mostrar como lidar com essa situação natural da vida, que é de constante mutação: segure firmemente um objeto em suas mãos, alongue os braços à sua frente com a palma para baixo e relaxe seus dedos: você perderá o que carrega. Contudo, se mantiver a palma da mão para cima, mesmo afrouxando os dedos, o objeto ainda estará ali. O segredo, então, é conservar o que se tem com desapego ou, então, soltar de vez o que não tem mais valor.

A paulistana Renata, advogada e estudante de Letras, 40 anos, experimentou as benesses, riscos e desafios de dizer adeus para o que não valia mais a pena. Trabalhava em um banco, tinha bom cargo e salário condizente. Porém, não se sentia feliz com seu trabalho. O destino, então, deu um empurrãozinho: ela apaixonouse por um italiano de passagem pelo Brasil. Os dois começaram a namorar e, quase um ano depois, decidiram se casar e viver em Milão, a cidade natal do rapaz. Foram cinco anos de intenso aprendizado e amadurecimento. Até que também essa etapa acabou. No fundo, apenas dizemos adeus aos rótulos que carregamos: profissão, estilo de vida, condição financeira. Mas às vezes é necessário abandoná-los para permanecermos fiéis à nossa essência, afirma.
próxima
E o que nos segura?

Um adeus autêntico exige coragem, ainda mais quando vai contra o que propõe a sociedade contemporânea. Valores como segurança e estabilidade (muito mais no sentido da imobilidade que da harmonia) permanecem em alta. Então, por que arriscar? Ao mesmo tempo, a sociedade também nos impele ao frenesi das falsas mudanças (de carro, roupas, bens de consumo, parceiros sexuais...) que nos iludem com suas promessas de felicidade. Na agitação de vida atual, muitas vezes a pessoa não consegue gestar um novo projeto para si mesmo. Ou, por pressões externas, não chega nem sequer a desejar a formulá-lo, diz o filósofo Franklin Leopoldo e Silva, professor da USP. As únicas mudanças permitidas são aquelas que estão dentro dos esquemas formulados pela sociedade de consumo e sua infinita oferta de papéis e identidades. Tudo isso em benefício de uma falsa liberdade, posto que delimitada, diz ele. A solução nesse caso é seguir o que de mais particular e verdadeiro clama dentro de nós. E seguir esse anseio verdadeiro sem ter medo ou culpa.

Negar a própria bem-aventurança, como dizia o mitólogo norte-americano Joseph Campbell, ou tornarse surdo diante dos apelos da alma pode trazer conseqüências até para o organismo. Os conflitos internos vão aumentando, a pessoa é tomada pelo desânimo, depressão e cansaço, a energia pára de fluir e isso explode num sintoma físico, diz a psicóloga Regina Nanô. Irritabilidade excessiva, gastrite, constipação, enxaquecas ou infecções freqüentes... É preciso prestar atenção tanto no corpo quanto no coração: será que não estão dizendo à razão que é hora de recomeçar?

Ganhos, não perdas

O medo da perda dificulta essa tomada de decisão. Especialmente pela constatação de que deixaremos para trás um parte de nós mesmos o que fomos para sermos o que somos agora. Porém, junto com toda renúncia há sempre um ganho e um aprendizado, que aos poucos se dão a conhecer. Todo adeus traz, consigo, um sim para a vida dito imediatamente antes, afirma a filósofa Dulce Critelli. Como a princípio esse sim nem sempre é evidente, vem a angústia. Muitos especialistas comparam o processo de encerramento de um ciclo à experiência do luto, com as mesmas fases passadas por alguém que tenha perdido um parente, por exemplo. Há o choque inicial, o período de negação ou dúvida e o momento em que sentimentos e sensações misturados (da insegurança à solidão, da confiança a um intenso contentamento) vêm à tona de forma torrencial. Depois, o instante em que o indivíduo se dá conta de que o fato é real e, por fim, a aceitação. Permitir-se vivenciar todos os estágios é fundamental.

Os especialistas em luto, inclusive, aconselham externalizar esse adeus, dizer com todas as letras para si mesmo o que se deseja largar e soltar. Algumas pessoas precisam verbalizar o que querem da vida para ganhar força para tomar uma decisão. Outra recomendação é reservar uma parte do dia para viver a dor da perda. Nesse momento, que pode ser antes de dormir ou num fim de tarde, por exemplo, se pode chorar, ir ao fundo do poço. Durante o restante do dia, porém, o mais aconselhável é viver o presente, sem se deixar carregar pelo sofrimento.

O adeus acontece desde o instante em que resolvo mudar ou inicio a mudança. Até o momento da ruptura, elaboro o que ganho e o que perco e faço gradativamente as despedidas, afirma a psicóloga Ingrid Esslinger, do Laboratório de Estudos da Morte da USP. O luto continua, mesmo depois da decisão concretizada. Por isso, é comum que a pessoa se pegue, tempos mais tarde, chorando de saudade ou questionando se aquela opção foi a melhor.

Segundo Ingrid, de todas as despedidas cotidianas, a mais delicada é a da separação amorosa. Mesmo que seja um adeus fruto de consenso entre ambas as partes, a aceitação da própria morte na consciência do outro é doloridíssima, diz. Reconhecer que você não fará mais parte das escolhas e das alegrias do ex, que não partilhará mais suas alegrias, é muito difícil. Um amigo meu, hoje com 39 anos, há algum tempo me falou sobre sua experiência: Os períodos pré, durante e pós-separação doeram em mim tanto quanto a morte de meu pai, conta. Precisei olhar para o futuro, e, mais do que nunca, considerar a fase anterior como parte da memória e de minha formação, disse.

Nosso novo eu

A nova etapa inevitavelmente trará surpresas, e aqui reside outro obstáculo freqüente na hora de dizer adeus: o medo do desconhecido, do imprevisível. De sair de uma situação esquematizada um parceiro que já conhece seus defeitos, uma função que domina no trabalho, um ambiente em que todos sabem quem você é para outra diferente, com as definições ainda por fazer. O adeus traz uma sensação de caos, mas é importante ter claro que se trata de uma reorganização e não de uma desestruturação, diz Regina Nanô. A despedida implica lançar outro olhar não só ao que está ao redor, mas também a si mesmo e o grande medo da despedida, talvez o maior de todos, vem daí. Medo desse novo eu que, com o fim do ciclo, ganha permissão para desabrochar e revelar-se ao mundo. Se você passou boa parte de sua existência vivendo para os outros e sem contato consigo mesmo, o espanto será imenso: quem é essa pessoa? Porém, se aprendeu a respeitar seu dharma (termo hindu que designa nossa natureza autêntica, essa condição singular e única que nos faz ser quem somos), as perdas aparentes serão, na verdade, ganhos.

O dharma não muda. A necessidade de mudança e de dizer adeus a pessoas e situações indica o quanto estamos nos afastando ou nos aproximando dele, diz Carlos Eduardo Barbosa, estudioso da Índia e professor de sânscrito em São Paulo. Assim, quanto mais sintonia houver entre seu cotidiano e seu dharma, menos despedidas existirão. Uma pessoa que age em coerência com seu chamado interior não precisa dizer adeus, diz. Ela já vive a própria escolha, sempre. A vida dá umas puxadinhas aqui e ali para que voltemos ao nosso caminho.

A propósito, despeço-me aqui, leitor. Preciso arrumar as malas, desmontar o apartamento. Espero que sua trajetória seja permeada por belos momentos de despedida. Adeus!


Para saber mais
Livros:
A Separação dos Amantes Uma Fenomenologia da Morte, Igor Caruso, Cortez
O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, Sogyal Rinpoche, Talento

Fonte: Revista Vida Simples

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