domingo, 15 de março de 2009

Análise_Confiança

De braços abertos

O que nos impede de nos atirarmos com confiança e alegria para as experiências do mundo? Por que temos tanto medo de nos entregarmos num relacionamento? E, mais que tudo, será que dá para mudar esse nosso eterno pé atrás com a vida?

Faz de conta que você é um trapezista e que está numa plataforma a 20 metros de altura esperando sua vez de se lançar no espaço vazio. Você se preparou, fez vários treinos com e sem rede e sabe que pode contar com seus companheiros que estão ali do outro lado. Naquele centésimo de segundo antes de se jogar, tudo o que você precisa fazer é encher o peito de confiança: em si mesmo e, principalmente, é claro, nos outros. Você inspira fundo, toma impulso e vai como se fosse possível voar sem asas e desafiar a lei da gravidade para sempre naquele curto espaço de tempo. E, quando inexoravelmente começa a cair, alguém pega com vontade nos seus pulsos e o traz de volta para aquela coreografia impossível e bela sob o céu colorido de um picadeiro.
Uma das cenas mais bonitas entre pais filhos é ver uma criancinha correr de braços abertos em direção a seu pai ou sua mãe para se jogar neles com a maior felicidade. Ela sabe que vai ser amparada e acolhida com segurança e amor e por isso não tem a menor dúvida. Isto é, ela tem total confiança na vida. E o que faz alguém se lançar no mundo com essa mesma coragem, determinação e alegria?

Isso mesmo, a confiança. A própria palavra confiança tem em si mesma o segredo de como ela nos dá essa força que nos permite ultrapassar nossos próprios limites e medos para acreditar na begnidade da existência. Confiar vem do latim con fides, isto é, com fé. A confiança, portanto, é uma questão de fé. A gente pensa que a fé pertence ao universo da religião, que está apartada da vida comum, mas isso não é verdade. É a fé que nos preenche o coração na hora de nos atirarmos num projeto, nos entregarmos em relacionamentos, perseguirmos um objetivo. Não se pode saborear plenamente a vida sem fé. Ela é nosso mais poderoso catalisador de energias.
E fé é muito mais que crença ou dedução de um raciocínio lógico. Ela é incondicional. Isto é, não depende de conclusões, lógicas, probabilidades, previsões. Muitas vezes, até, ela vai exatamente em direção oposta ao que tem chance de dar certo. A fé, basicamente, é um exercício dinâmico de coragem. E coragem, como o próprio nome diz, é ter o coração na ação. Quando colocamos o coração naquilo que fazemos, somos impulsionados pela fé, pela confiança. Ultrapassamos assim uma série de bloqueios e obstáculos, internos e externos, com resultados impossíveis de serem atingidos sem sua presença.

Por isso a confiança é tão poderosa. Dezenas de pesquisas mostram que a fé é decisiva para a manutenção da saúde, por exemplo. Pode ser tanto a fé em Deus quando a fé na v ida, num sonho, num projeto. Mas ela é fundamental para nossa saúde física e psíquica, diz Sueli Gevertz, psicóloga e coordenadora de comunicação da Sociedade Brasileira de Psicanálise.

Então a próxima pergunta é: se a confiança na vida é tão importante, por que não nos atiramos de peito aberto de uma vez por todas? É o que veremos em seguida.

Couraças musculares

Vamos voltar para o exemplo da criancinha que se atira nos braços dos seus pais. Logo, logo ela vai perceber que o mundo não é tão generoso e seguro quanto esse abraço reconfortante. E que, se estiver de peito aberto, pode se ferir. E aqui vamos encontrar o principal motivo da perda da confiança: o medo da dor.

Esse temor, segundo o criador da bioenergética, Wilhelm Reich, vai se refletir no corpo formando couraças musculares, que são a corporificação física dos nossos medos e defesas. Vamos enrijecendo, tanto psíquica quanto fisicamente. Até o ponto de nos tornarmos totalmente tortos, se as defesas forem desproporcionais à realidade. O medo, como as couraças, é necessário na vida, porque nos protege e nos ajuda a sobreviver. O que não pode é sempre querer enxergar a existência apenas através dele, diz a psicoterapeuta corporal paulista Irene Cardotti, especializada em bioenergética e terapia ocular. Isto é, há o momento da couraça, do escudo e da defesa, como também existe a hora do peito aberto e da entrega. E como fazer essa escolha com sabedoria?

Uma das respostas é se manter firme sobre seu próprio eixo. Quando a gente tem os pés bem plantados no chão, está firme, seguro. Temos confiança porque sabemos que não é qualquer coisa que vai conseguir nos derrubar, diz Irene. A figura da árvore frondosa, com seu tronco firme mas com seus galhos flexíveis acompanhando o vento, é muito útil para a gente visualizar quem tem confiança na vida e sabe se adequar a seus movimentos e impermanências, diz Irene.

Outra saída para dissolver as couraças é ativar o corpo com exercícios de flexibilização, como ioga, tai chi, dança, circo, alongamento e práticas de bioenergética. E saber descarregar o excesso de energia na terra, andando descalços, por exemplo. É preciso aprender a reconhecer que não podemos carregar pesos emocionais em excesso. Eles podem se acumular no corpo, na couraça dos ombros, por exemplo, e a gente fica como se fosse o gigante Atlas, carregando o mundo nas costas, curvado, tenso, fechado, incapaz de abrir os abraços, mostrar o peito e confiar no mundo, afirma a psicoterapeuta. Isto é, além de soltar o corpo em exercícios de flexibilzação, é preciso saber descarregar a energia. E saber dizer não, não posso, quando o peso emocional for excessivo. Com o tempo e ao autoconhecimento, sabemos perfeitamente quando o peso que conseguimos suportar já deu, diz Irene.

Flores, uvas e pêssegos

Mas o que dizer se realmente a gente foi muito machucado durante a vida? Como voltar novamente a confiar no mundo? A artista plástica Isabel Abranches (nome fictício), por exemplo, sofreu um ataque sexual aos 16 anos, na saída da escola. Foi muito traumático para ela. A mãe nunca soube de nada (nunca contaram a ela por causa de sua rigidez e intolerância), mas o pai decidiu, de comum acordo com Isabel, que era melhor a jovem viver algum tempo em outra cidade. E assim ela foi para a casa da sua avó Güeli, num pequeno vilarejo do Rio Grande do Sul. O casarão ficava entre parreiras de uvas negras muito doces e pés de pêssego. Em seu pequeno quarto, todos os dias havia flores frescas no vasinho do criado-mudo deixadas silenciosamente pela velha senhora. Também sempre havia uma surpresa para Isabel na hora da sobremesa: morangos em calda, ovos nevados, bolo de chocolate. Na mesinha de estudos, não faltavam lápis coloridos para ela pintar e desenhar. E Isabel ainda tinha o prazer de ouvir as saborosas histórias de vida da avó Güeli à noite, que a faziam rir, sonhar e ter fé novamente na benevolência da existência. Ficaram amigas, profundamente amigas: duas mulheres, uma velha e outra jovem, que tinham a exata perspectiva do que haviam passado, tanto sofrimentos quanto alegrias. Um dia minha avó me disse que eu era uma pessoa muito especial, que faria escolhas especiais na vida, e que por isso poderia ajudar muita gente, compartilhando minhas experiências, tanto as tristes quanto as alegres. Com essa frase, ela me deu a permissão de ser novamente eu mesma, do jeito que eu sou, diz ela. Isabel se voltou para as artes plásticas e aos 17 anos conheceu Rodrigo, seu amoroso companheiro há três décadas. É tão feliz, alegre e confiante que se tornou instrutora de um grupo espiritual. Hoje ela é capaz de ajudar outras pessoas a abrir de novo seu coração com confiança, mesmo depois de uma experiência traumática.

Às vezes temos a sorte de ter uma avó Güeli na vida para nos curar. Mas, se não tivermos, também podemos fazer isso a partir de nós mesmos: reaprender, aos pouquinhos, a nos presentearmos com pequenos prazeres, apostar de novo em nossos sonhos e ideais, descobrir novos talentos e dar um voto de confiança ao futuro. Talvez seja preciso terapia ou a ajuda de um grupo de apoio, mas o caso tem solução e certamente o sol poderá voltar a brilhar outra vez.

Como água no vasilhame

Quando se mora quase 30 anos fora do Brasil em nove países diferentes, enfrentando realidades tão distintas quanto a de belas cidades de pedra do século 17 na Bélgica ou o ambiente úmido da floresta amazônica no Suriname, é preciso ter uma confiança básica e elementar na vida. É o caso de Mônica Vilhena, que foi oficial de chanceleria do Brasil no exterior. Ela tem uma maneira poética de se expressar sobre esse assunto: A confiança é como a água, que se adapta a cada vasilhame. Ela está sempre ali, independentemente do que acontece. A situação pode mudar que ela não desaparece nem muda de volume, diz ela. Essa é a confiança verdadeira, assegura Mônica, que tem a humildade e a abertura necessárias para se adaptar a diferentes cenários. Ela enxerga o sucesso e a realização em cada situação e não vê a vida como uma sucessão de êxitos e fracassos. Por isso, não se pode perdê-la nunca, diz.
Para manter essa maneira de encarar a vida, Mônica se apoiou na sabedoria do corpo. Há 22 anos pratica e ensina biodanza, método criado pelo antropólogo chileno Rolando Toro (que esteve em março no Brasil). Apreendeu a sentir as dores emocionais sem sucumbir e a resgatar uma confiança inexorável na vida, com base, principalmente, em movimentos corporais. É só olhar para uma pessoa confiante: ela diz isso fisicamente, por meio de suas expressões corporais. E o primeiro passo para viver isso é se apoderar do próprio corpo, vivenciá-lo, senti-lo, habitá-lo, e liberar as dores emocionais que podem estar aprisionadas nele. Isso é muito curativo, afirma a instrutora.

A pessoa que confia está a léguas de distância daquele otimista insuportável que sempre acha que tudo vai dar certo, afirma a psicoterapeuta carioca Natália Assunção. O otimista de carteirinha parece que está inchado, inflado como uma bola de gás. Tudo nele tem um ar forçado, artificial. O otimista quer que as coisas dêem certo, custe o que custar. Já a pessoa confiante exala naturalidade, graça, leveza. Ela não é obsessiva diz Natália.

Então é isso: quem confia se sente seguro e tem fé na vida, não importando o que vai acontecer. Prepara-se, física e psicologicamente, tem ajuda ou pede por ela, treina muito e como Zorba, o grego (do clássico do cinema), depois do baque inicial, é até capaz de dançar com um sorriso sobreO próprio fracasso. Sinceramente, talvez você e eu ainda não tenhamos chegado a esse ponto verdadeiramente invejável. Mas tenho certeza de que, com um pouco de prática, entrega e abertura, ainda chegará o dia em que finalmente teremos coragem de chegar à pontinha da plataforma do trapézio, contemplar o ambiente e nos atirarmos. Com muito mais confiança.

Para saber mais
Livros: Do Desabrigo à Confiança, Bile Tati Sapienza, EscutaFontes da Força Interior, Anselm Grün, VozesConstrua
Confiança, Robert Solomon e Fernando Flores, Rocco

Fonte: artigo de Liane Alves – Revista Vida Simples

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